Essa é grande! (paciência!)
Transformando situações
1985 -1986
Em novembro de 1985, Rogério foi aprovado no concurso para o Corpo de Bombeiros. Embora estivesse já no final do curso de Química, ele não pensou duas vezes antes de decidir ser bombeiro. Após todos os exames físicos e médicos obrigatórios, Rogério foi admitido como aluno no CIBOM (Centro de Instrução de Bombeiros) em Belo Horizonte. Seriam sete meses e meio de curso intensivo, com objetivo de dar todo o preparo técnico, profissional e psicológico para atividades de soldado bombeiro. Com finalidade de eliminar aqueles que não tinham aptidões físicas e/ou mentais para a função, os três primeiros meses foram literalmente infernais, fazendo com que alguns se desligassem espontaneamente, enquanto outros foram convidados a tomar essa decisão.
O seu chefe de curso era o tenente Honorato, inteligente, sensível e cordial, essas duas últimas qualidades de sua personalidade contrastavam com a de outro jovem oficial, o ten. Oliveira, chefe de curso da outra turma.
Devido a sua excelente condição física, Rogério ficou entre os três primeiros colocados no TAF (Teste de Aptidão Física), destacando-se também nas provas teóricas. Em pouco tempo, Rogério estava sendo chamado à frente da tropa para “puxar” os exercícios.
Após dar por terminado os cursos de combate a incêndio, salvamento, salvamento em altura, montanhismo e socorros de urgência, começou a parte mais esperada por Rogério; era o salvamento aquático e mergulho equipado. Treinavam cerca de oito horas diariamente na piscina de mergulho do 1º e 3º GI.
Foi nessa etapa do curso que sentiu a positiva influência provocada por um colega de quarto que era membro da Igreja Batista. A sua fé e suas palavras tocaram o coração de Rogério. Certo dia, deitado em seu beliche, estava a ler um livro emprestado por ele. Este relatava a História de Ivan, um soldado russo que havia se convertido ao cristianismo. A União Soviética era extremamente intolerante com qualquer religião. A única forma de adoração permitida e imposta era ao Partido, sendo o Ateísmo Comunista, a religião oficial. Ivan foi perseguido pelos superiores hierárquicos, que exigiram a renuncia de sua fé em Cristo. Por se negar a isso, ele foi enviado a Sibéria, onde recebeu um tratamento “especial”, sofrendo muitas torturas físicas e mentais. Porém em todos os seus intentos, fracassaram, pois a mão do Senhor estava com ele, fortalecendo-o. A sua grande integridade e inabalável fé proporcionaram um poderoso testemunho em seus torturadores, que contribuiu para a conversão de muitos que o conheceram inclusive de alguns guardas que o mantinham preso. Por fim, Ivan, acabou sendo morto, com requintes de crueldade, sendo mais um mártir cristão, cujo sangue derramado, tornou-se como semente do Evangelho.
A História de Ivan, sua vida e seu martírio causaram uma forte impressão em Rogério. Ele lembrou-se da aliança que fizera com Deus e procurou a partir de então, fazer o que era agradável aos olhos de Iahweh. Arrependeu-se de seus erros, de seu orgulho e da forma como tratara sua ex-namorada, porém ele não voltou a sentir a felicidade e a paz de quando havia feito a aliança com Iahweh. Ele ainda acreditava que Deus o havia abandonado por seus muitos pecados.
Rogério adoeceu, teve uma forte gripe, que depois foi diagnosticada como bronquite. Dentro de quinze dias começaria o curso de mergulho equipado e se o quadro não fosse revertido o médico não permitiria que Rogério mergulhasse o que significaria ser desligado do curso. Toda a noite clamava a Deus por uma cura rápida e completa. Em menos de uma semana estava totalmente são, o médico ao ver as chapas de RXs parecia não acreditar, seus pulmões estavam completamente limpos, concluiu que era conseqüência da administração correta de medicamentos aliada à natação diária, mas avisou-lhe que existia uma chance muito grande de a bronquite voltar, pois era crônica. Porém Rogério afirmou-lhe que quem o curara fora Deus e que, portanto, não haveria chance de a doença voltar.
Cerca de um mês antes da formatura, um mal entendido fez com que o Sgt. Lino procurasse prejudicar Rogério, fazendo uso de pressão psicológica e insultos além de obrigá-lo a fazer exercícios físicos a qualquer hora, inclusive de madrugada. Por ter sido aprovado com louvor em todas as matérias, o único modo de desligá-lo do curso seria por indisciplina.
Faltando apenas uma semana para a formatura, o Sgt. Lino, que estava de prontidão naquela noite ao ver Rogério, que estava de folga, saindo em trajes de passeio resolveu provocá-lo mais um pouco. Primeiro mandou que Rogério fizesse dez flexões, e continuou exigindo que ele fizesse mais e mais, depois de fazer quarenta flexões, o Sgt. Lino colocou um pé em suas costas e tentou obrigar Rogério esfregar suas roupas limpas numa poça. Aquilo foi à gota que faltava. Rogério levantou-se e se negou a fazer os caprichos do Sgt. Lino, acusando-o de abuso de poder. Por causa disso Rogério recebeu uma parte disciplinar de natureza grave, insubordinação .
Rogério sentia-se injustiçado, pois tudo aquilo fora armado contra ele pelo Lino. Quando faltavam apenas dois dias para a formatura, chegou a noticia de seu desligamento. Ela foi dada à tarde, quando todos os recrutas estavam em forma ensaiando para a formatura.
O Ten. Saraiva, aproximou-se e disse secamente:
- Lelis fora de forma, marche...! Você está excluído.
Aquelas palavras caíram como uma bomba, sobre o grupamento, abalando o moral de muitos.
Com passos vacilantes, Rogério saiu de forma e foi para o seu aposento. Recebeu ordens de juntar a sua farda e devolvê-la à Corporação. No dia seguinte, pela manhã, em vez de fazer o último ensaio para a formatura ele deveria partir de volta para casa como um excluído mesmo tendo concluído o curso e estando entre os primeiros colocados.
Ele sentia-se deprimido a ponto de desejar a morte, nunca sentira uma tristeza tão profunda em sua vida. Telefonou para seus pais, porém não teve coragem de dizer-lhes que havia sido excluído, mentiu, dizendo para eles não virem, por razão da formatura ter sido adiada. Não poderia voltar para casa derrotado desta maneira. Chegou a pensar em fugir para qualquer lugar onde ninguém o conhecesse. Quando começou a fazer a Escola de formação de Bombeiros largou contra a vontade de seu pai o curso de Química industrial. Sua relação com seu pai, até antes de começar a escola de bombeiro, não era muito boa, pois dependia de seu pai pra tudo: dinheiro para cortar os cabelos e até mesmo para pegar ônibus, e seu pai nunca deixava de lembrá-lo disso. A sua aprovação no concurso fora uma tábua de salvação, uma proclamação de independência. Durante o curso sua relação com seu pai havia melhorado sensivelmente, acreditava que voltar para casa após ser excluído do curso faria que ele fosse também excluído de casa.
Estando de pé encostado em seu beliche, rogava a Deus para que aquilo fosse apenas um pesadelo e que logo acordasse. Não havia se alimentado desde o final tarde do dia anterior, quando fora notificado de sua exclusão. Agora enquanto todos jantavam, Rogério clamava a seu Deus e lembrou-se do salmo 50:
“Invoca-me no dia da angustia; eu te livrarei, e tu me glorificarás”. Salmo 50:15
Naquele momento, Rogério começou a orar com todo o fervor, como nunca havia feito antes. Rogando a Deus para que cumprisse as promessas contidas naqueles versos.
Em dado momento durante a oração, ele sentiu uma presença ao seu lado, porém invisível aos olhos. Os pêlos de seu corpo ficaram eriçados, como se o ar estivesse eletrizado. Não estava mais sozinho, sentia-se cercado pelo amor de Deus, um amor quase palpável, que fez seu coração arder e a sensação de ter borboletas no estômago. Uma fantástica sensação de conforto, consolo e aconchego. Foi então que ouviu a voz do Senhor em sua mente:
- Nunca te abandonei... Volte para mim de todo o teu coração, e Eu retornarei a ti... Amanhã tu formarás! Irei adiante de ti e mostrarei estar contigo... Farei isso não por ver justiça em ti, pois és pecador, mas por fidelidade à aliança que fiz contigo.
Rogério sentia agora a mesma felicidade e paz que havia tido aos quatorze anos, quando fizera a aliança com Deus.
Agora, em vez de devolver a farda, ele a deixou impecável, pois no dia seguinte seria a sua formatura. Como já havia passado o horário do jantar, ele saiu do CIBOM e foi a uma padaria próxima para fazer um lanche, somente agora se dava conta que ficara por dois dias sem comer. Telefonou para os seus pais e disse que a formatura na verdade não fora adiada. Eles, muito aborrecidos, lamentaram por não haver mais tempo para irem.
Pela manhã ele barbeou-se e colocou a farda, os colegas acharam que ele estava delirando, que havia perdido o juízo e alguns por gozação tratavam-no como se ele realmente fosse formar, outros por pena, faziam o mesmo. Um de seus colegas de quarto, Tadeu, pediu para que eles trocassem os cintos antes que ele devolvesse a farda. Rogério, porém lhe respondeu:
- Se eu tiver que devolver, eu troco com você, mas eu irei formar, não vou devolver nada.
Tadeu tentou dizer-lhe da melhor maneira que lhe pareceu
- Cara...! Você foi excluído, para de dar bandeira.
- Você não iria acreditar se lhe dissesse, porque sei que vou formar... Então espere pra ver.
Pela manhã Rogério entrou junto com os colegas no ônibus da PM, com destino a Academia de Policia Militar. O Sgto. Lino, que também estava no ônibus, não viu ou fingiu não ter notado a presença de Rogério.
- Até aqui tudo bem. – pensou Rogério.
Quando chegaram à Academia, ocorreram alguns eventos improváveis que permitiram a Rogério em poucos minutos, estar na sala do Comandante da Academia da Polícia Militar, Cel. Klinger. Antes, ele falou com o Oficial Adjunto do Cel. E explicou-lhe que precisava ter uma audiência com ele. Após alguns minutos, o capitão permitiu que Rogério entrasse, seria a primeira vez na história da academia que se permitia uma audiência de um soldado aluno com o Comandante Geral da PM, era uma grande sala, confortável e luxuosa e sentado junto a uma grande e elegante mesa estava o coronel, que com as mãos fez um sinal permitindo a aproximação dele e depois perguntou:
- Tem certeza que é comigo que o recruta quer falar?
- Sim senhor! – ele prestou continência, se apresentou e depois relatou ao comandante toda a injustiça em que estava sendo vítima. Após isso, o comandante perguntou-lhe, enquanto fazia um sinal com a mão direita, para que Rogério se aproximasse mais:
- Você sabe que papéis são esses em cima de minha mesa...? Onde...? Aqui está o seu pedido de exclusão. Está aqui desde ontem e... Você é um garoto de sorte. Suas notas são muito boas e... Você sabe o quanto a PM investiu em você? Apesar do pedido de exclusão disciplinar, resolvi te dar uma chance... Filho, você vai formar! Sua exclusão não será publicada. Mas não esqueça de uma coisa, isto nunca aconteceu na Academia, portanto saiba valorizar esta chance que lhe dou. Junte-se aos outros. Está dispensado!
Rogério agradeceu ao comandante com um incontrolável sorriso, ele não tinha palavras, e saiu. Seu coração ardia em alegria, sentia uma imensa gratidão para com Deus, estava cônscio que sua dívida para com Ele era impagável.
Na saída, o Oficial Adjunto pediu que ele aguardasse, e após alguns minutos saiu da sala do comandante com um envelope lacrado, dizendo:
- Entregue ao Ten. Honorato. E... Eu não sei por que Cel. Klinger voltou atrás na decisão de desligá-lo. Já vi casos de cadetes do 3º ano e mesmo até do 4º ano, que apresentaram argumentos melhores que os seus, mas mesmo assim o comandante nem se quer deu-lhes atenção. Ele é muito rígido com a disciplina, principalmente quando se trata de insubordinação..., que é justamente o seu caso.
Rogério lhe respondeu:
- Senhor Capitão! Concordo com o senhor. A minha vantagem sobre os demais não foi no argumento e nem por uma acusação menos grave, mas sim porque Deus mostrou estar comigo.
O Capitão deu um sorriso forçado e lhe disse:
- Vá!
Rogério entregou o envelope ao tenente Honorato e se juntou aos demais colegas. Foi uma grande surpresa quando souberam que ele formaria e muitos demonstraram efusivamente a sua alegria abraçando-o. A noticia espalhou-se rapidamente pela Academia, logo ele era o centro das atenções de vários cadetes. O Sgto. Jardel que havia se revezado com Lino na tarefa de persegui-lo, mandou-lhe entrar em forma, pois a cerimônia de formatura já estava pra começar. Mas disse-lhe também:
- Hê, Lelis..., você é muito forte! Nunca vi...! O que o Cel. Klinger viu em você?
O rancor acendeu-se no coração de Rogério, que respondeu-lhe:
- Devem ter sido os meus olhos.
Após a formatura o Sgto. Lino foi até ele e felicitou-o, dizendo:
- Parabéns, você mereceu!
Rogério correspondeu ao seu cumprimento, já não se sentia magoado pelo que ele fizera, naquele momento ele quase gostava dele.
Rogério Lelis Rocha
Ele jamais esqueceria o dia 23 de Junho de 1986, quando recebera a visitação celestial, a irrefutável ação do Senhor em prol de sua causa fazendo com que ele voltasse a estar incluído entre os sete formandos que seriam destinados a Uberaba, porém Rogério fez o que era mal aos olhos de Iahweh, por ter deixado acender o rancor em seu coração, pagando o mal com o mal e esquecendo-se de dar glória a Deus. Mas o Senhor não lhe imputou esse pecado, pois o Senhor não lhe fizera isto como pagamento por algum ato de justiça dele; mas sim porque Iahweh tinha um propósito no futuro.
Rogério Lelis Rocha

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