domingo, 2 de maio de 2010



Testemunho enviado por  Rogério L. Rocha






 Março 1990


O relato a seguir trata de uma ocorrência de incêndio, onde pude sentir novamente, de maneira inegável, a “mão” de Deus em prol de uma vida.
O sol havia se posto a pouco, quando soou o alarme. Normalmente em chamados sem grande urgência costuma-se apenas fazer uma escolha rápida da equipe chamando-os pelo nome, o alarma só era acionada em situações de risco real e imediato. Logo que ouviu o seu toque Rogério sentiu que não seria apenas mais uma ocorrência. Foram informados que era um incêndio em residência, porém sem vítima, conforme orientou o sd Freitas que estava de telefonista, mas logo que chegaram no local do sinistro, no primeiro quarteirão da rua João Pinheiro, uma mulher em desespero gritava: “tirem o meu filhinho lá dentro! O meu filho está lá dentro.” – Rogério tão rápido quanto pode, começou a colocar o equipamento de respiração para ambiente confinado, conhecido como PA-54, mas devido ao desespero daquela mãe, Rogério optou por não colocar o aparelho pela forma indicada, colocou a máscara rapidamente, sem testá-la, e segurou o cilindro junto ao peito, em vez de fixá-lo as costas. Logo ao entrar na casa percebeu o seu erro, a máscara havia sido mal colocada, não estava vedada, ficando impossível aspirar o ar do cilindro. Ele não poderia voltar para colocar o aparelho e ajustar a mascara, aquela mãe não suportaria vê-lo voltar sem seu filho nos braços. O calor estava insuportável, porém quase não havia chamas devido o baixo teor de oxigênio no ar. Rogério prendeu a respiração enquanto caminhava com o tronco curvado tentando evitar a fumaça e o calor excessivo. Ele estava chegando quase ao limite de sua capacidade de reter a respiração, mas estava decidido a não voltar sozinho. Em seu íntimo rogava a Deus que lhe desse fôlego e direção para encontrar a criança. Em meio à escuridão esbarrou no guarda-roupa, ao tocar a porta sentiu como se uma força de dentro para fora impelia a porta contra si, abriu-a e em meio a roupas sentiu a presença de dois bracinhos apontados para cima, em direção a ele. Rogério imediatamente pegou a criança com o braço esquerdo, enquanto que com o direito, pegou uma peça de roupa e deixou junto ao rosto do menino, para protegê-lo da fumaça, ao mesmo tempo em que com o mesmo braço segurava o PA-54, Rogério foi tentado a deixá-lo lá, pois seus pulmões ardiam. Mas temia ser punido por abandonar seu equipamento. – falta pouco! – É o dizia a si mesmo. Quando chegaram à sala, viu a ponta de um esguicho que estava junto à porta, no exato momento em que este disparava um jato neblina em sua direção, junto com a água, ar puro, aspirado pela propulsão da água. Rogério, com grande alivio, inalou o ar. As chamas agora se elevaram ao seu redor, revigoradas pelo oxigênio, porem protegidos do calor pela água que sobre eles caiam, chegaram até a saída.
Quando devolveu o menino aos braços da mãe e viu as lágrimas de felicidade que corriam em suas faces, um profundo sentimento de satisfação encheu-lhe o coração,







– “Eu sou bombeiro!” – é o que dizia a si mesmo.



Ao retornarem ao quartel o chefe de guarnição sub.-ten. Oliveira fez um elogio individual ao sd Rogério, porém na manhã seguinte o sub-ten. Lima disse não ser necessário nenhum elogio, pois ele não fizera mais do que a obrigação. Rogério quase não resistiu a tentação de perguntar-lhe se em alguma vez de sua longa carreira ele já havia cumprido a obrigação dele.



No dia seguinte, logo pela manhã ao sair do serviço, Rogério voltou ao local do incêndio.



A casa, uma casca de tijolos carbonizados, ainda estava fumegando. Pedaços de mobília queimada estavam espalhados pela frente da casa, apresentei-me a mãe da criança, junto ao seu esposo e perguntei-lhe se podia ver a casa. Com um olhar de gratidão, concederam.
Ele foi até o quarto onde encontrara o menino, tal como o resto, estava carbonizado, as paredes estavam cheias de bolhas por causa do calor tão intenso. Num dos cantos estavam os restos do guarda roupa queimado. Lentamente ele se virou para olhar ao redor do quarto queimado e de repente parou, admirado, com os olhos fixos na parede. Ali, diretamente ao lado do lugar onde havia pego o menino, estava um quadro muito bem pendurado. E o que havia de mais estranho, era a única coisa naquele quarto que não havia sido danificado pelo fogo. A moldura, claro, estava negra, mas o rosto estava ileso e não havia sido tocado pelo fogo.







Era uma gravura de Jesus.







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